Notícias do Digital — Sherlocking: quando um update mata seu SaaS

O caso Moment vs Screen Time e a lição dura para quem constrói SaaS em cima de plataformas: wrapper não é produto.

Matheus··4 min de leitura

Tem ideia de SaaS que parece boa demais?
Cuidado: às vezes ela não morre por concorrência.
Ela morre por atualização de software.

A notícia do dia

Durante anos, o app Moment ajudou usuários de iPhone a entender quanto tempo passavam no celular.

Era simples, útil e resolvia um problema real.

Até que a Apple lançou o Screen Time, nativo no iOS — e o core do produto virou uma feature do sistema operacional.

No Vale do Silício, isso tem nome.

O que é Sherlocking (sem romantizar)

“Sherlocking” é quando uma plataforma lança nativamente uma funcionalidade que antes era feita por apps ou startups independentes.

Não é sobre “roubar código”. É sobre absorver valor.

Quando a feature vira nativa:

  • ela vem instalada
  • é gratuita
  • tem acesso profundo ao sistema
  • tem distribuição instantânea

O app externo passa a competir com o próprio sistema.

O caso Moment → Screen Time

Antes:

  • baixar um app
  • conceder permissões
  • abrir outro dashboard
  • lembrar de usar

Depois do Screen Time:

  • já vem no iPhone
  • usa dados nativos
  • integra com o sistema
  • resolve 80% do problema

Quando o nativo resolve “o suficiente”, o usuário não instala o extra.

Não porque o app é ruim. Mas porque não é mais necessário.

O erro não é o mercado — é o modelo

Aqui entra a parte que dói.

Se o seu SaaS:

  • só lê dados da plataforma
  • só organiza o que ela já sabe
  • só entrega uma visualização melhor

Você não tem um produto. Você tem uma feature terceirizada.

Esse tipo de SaaS é chamado de Wrapper.

Wrapper vs Produto (diferença prática)

Wrapper

  • depende da API de alguém
  • não tem dados próprios
  • não toma decisões
  • não aprende com o uso

É uma interface bonita em cima de algo que não é seu.

Produto

  • acumula dados exclusivos
  • constrói histórico
  • cria regras próprias
  • aprende padrões do usuário
  • toma decisão (ou orienta decisão)

A “mão invisível” da tecnologia sempre absorve o que é útil para a massa. O que sobrevive é o que não pode ser absorvido facilmente.

Onde está o Moat (o fosso)

Código é copiável. Feature é copiável. Interface é copiável.

O que não é:

Dados proprietários

Dados que só existem porque o usuário usa o seu sistema, do seu jeito:

  • histórico
  • preferências
  • padrões
  • contexto

Marca

Confiança, linguagem, estilo. Usuários não seguem produtos — seguem referências.

Comunidade

Feedback recorrente vira roadmap. Pedido vira funcionalidade. Uso real vira diferencial.

Moat não é tecnologia. Moat é acúmulo ao longo do tempo.

Ação prática (o que eu faria hoje)

Se você está construindo um SaaS:

  1. Liste tudo que depende de uma API externa
  2. Marque o que poderia virar nativo amanhã
  3. Identifique onde você gera dados próprios
  4. Transforme uso em histórico
  5. Transforme histórico em decisão

Construa processos, não só requests.

Checklist rápido

  • [ ] Meu produto funciona sem a API por algum tempo?
  • [ ] Eu acumulo dados exclusivos?
  • [ ] Meu usuário perderia algo se saísse?
  • [ ] Existe aprendizado contínuo?
  • [ ] Isso é produto ou só interface?

Se doeu, ótimo.
É melhor descobrir agora do que no próximo update.

Fontes (links)

  • Apple — Screen Time (overview): https://support.apple.com/guide/iphone/screen-time-iphbfa595995/ios
  • Moment App (site): https://inthemoment.io/
  • Artigo sobre Sherlocking e plataformas: https://stratechery.com/2017/platforms-and-sherlocking/

Se você quer mais conteúdo assim, eu mostro como transformar um wrapper de API em produto real usando dados, workflow e histórico.
Veja a série completa

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